'A violência começa antes do primeiro tapa': psicóloga conta como identificou sinais de agressão e hoje acolhe vítimas em Manaus
07/08/2026
(Foto: Reprodução) Lei Maria da Penha faz 20 anos; violência doméstica cresce no Amazonas
Em Manaus, a psicóloga Andréia Batista conhece a violência doméstica não apenas pela profissão, mas pela própria história. Ela foi vítima de agressões em dois relacionamentos e afirma que, antes dos episódios de violência física, viveu um ciclo de manipulação, culpa e desqualificação que demorou a identificar.
“Os sinais são muito sutis. Começa com uma desqualificação, com a culpabilização pelos atos do outro. Você passa a acreditar que precisa mudar a sua conduta para merecer respeito”, relata.
♀️ Nesta sexta-feira (7), a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Para marcar a data, o g1 conta histórias de mulheres que romperam o ciclo da violência e reconstruíram suas vidas.
Andréia conta que a primeira agressão nunca foi denunciada. Na época, foram a filha e os familiares que a convenceram a buscar ajuda e deixar o relacionamento. Anos depois, ao viver uma nova relação abusiva, conseguiu reconhecer os sinais mais rapidamente, mas ainda enfrentou dificuldades para oficializar a denúncia.
"Na segunda vez eu percebi mais rápido, saindo da relação e tentando proteger algo que imaginava ser necessário de ser protegido, a imagem do outro, a sua imagem, um reconhecimento, inclusive contar essa história publicamente é se colocar em um lugar de ser julgada e de emitirem opinião, de me falarem "mas não dava pra ter aguentado um pouquinho mais?", "mas você não exagerou?", relembra.
Segundo ela, o medo do julgamento e a tentativa de preservar a imagem do agressor costumam impedir que muitas mulheres procurem ajuda. “Hoje em dia, falo sobre o assunto como uma forma de fazer com que outras mulheres se identifiquem e se encorajem a denunciar", afirma.
Psicóloga Andréia Batista usa a própria história para incentivar mulheres a identificarem relacionamentos abusivos.
Divulgação
Apoio familiar é fundamental
Foi com o apoio de uma amiga que Andréia registrou a ocorrência e solicitou uma medida protetiva. Ela também recebeu atendimento da Defensoria Pública, do Instituto Médico Legal (IML) e acompanhamento psicológico e social, serviços que considera fundamentais para conseguir reconstruir a própria vida. A psicóloga ressignificou o trauma que passou ao longo dos anos.
"O trauma, ele faz marca e ele faz parte da nossa história. Para mim foi importante não apagar a minha história e ocupar um lugar de atuar sob esse trauma para que essa condição também seja reconhecida como parte da minha luta, parte da minha história que me traz até aqui e me movimenta também no trabalho", reflete Andréia.
Hoje, ela transforma a experiência em acolhimento a outras mulheres. Em 2025, participou de uma exposição em que vítimas de violência compartilharam suas histórias para incentivar outras mulheres a romperem o ciclo de agressões.
Para Andréia, reconhecer que está em uma relação abusiva é um processo difícil, mas necessário. “Procure ajuda. É no encontro com o outro, cuidadoso e amoroso, que a gente consegue se recuperar. A vergonha precisa estar com o agressor, nunca com a vítima”, conclui.
Onde buscar ajuda
Mulheres em situação de violência podem procurar atendimento nas Delegacias Especializadas em Crimes Contra a Mulher, acionar a Polícia Militar pelo telefone 190 ou buscar orientação e acolhimento por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia em todo o país.
As delegacias da Mulher funcionam em três endereços:
Avenida Mário Ypiranga, 3395, Parque 10 de novembro, Zona Centro- Sul.
Rua Desembargador Filismo Soares, Colônia Oliveira Machado, Zona Sul.
Avenida Nossa Senhora da Conceição, Cidade de Deus, Zona Leste.
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