Como apreensão de meia tonelada de droga deu origem a operação contra 'núcleo político' do CV no AM
20/02/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Civil mira núcleo político do Comando Vermelho no Amazonas
A Polícia Civil do Amazonas deflagrou a operação "Erga Omnes" contra um grupo ligado ao Comando Vermelho suspeito de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção, na sexta-feira (20). A ação, que ocorreu em Manaus e em outros seis estados, é resultado da investigação de uma apreensão de mais de meia tonelada de drogas e sete fuzis, em agosto de 2025, na capital amazonense.
Na operação de sexta, a polícia cumpriu 14 mandados de prisão, sendo oito deles no Amazonas. Entre os presos, estão a ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus e um servidor do Tribunal de Justiça do estado. Outras nove pessoas são consideradas foragidas, entre elas, Allan Kleber Bezerra Lima, apontado como líder do "núcleo político".
Segundo apurado pela Rede Amazônica, a atuação do grupo entrou no radar da polícia em 6 de agosto de 2025, quando 523 quilos de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, duas lanchas e um carro foram apreendidos no bairro Educandos, na Zona Sul de Manaus.
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De acordo com o relatório de ocorrências da PM, uma equipe estava em patrulhamento próximo à ponte do Educandos e viu duas pessoas em atitude suspeita, que fugiram em direção às margens do rio.
Os policiais foram até o local e encontraram 10 suspeitos desembarcando caixas com droga de duas lanchas para um carro. Houve troca de tiros e nove suspeitos conseguiram fugir. Um homem, que estava dentro do carro usado pelo grupo, foi preso em flagrante.
No veículo, foram encontrados meia tonelada de maconha e sete fuzis, sendo seis de calibre 7.62 e um de calibre 5.56. Além da droga e das armas, também foram apreendidos o carro e duas lanchas com motores 200HP.
A partir do caso, a Polícia Civil abriu inquérito para identificar quem comandava o esquema, quem financiava e como funcionava o transporte da droga.
Apressão de mais de meia tonelada de drogas levou às investigações que resultaram na operação 'Erga Omnes'.
Divulgação/Polícia Militar
Grupo tinha estrutura organizada, diz polícia
Durante o inquérito, a polícia descobriu uma cadeia de comando com operadores logísticos, financiadores e colaboradores que facilitavam o esquema criminoso. Eles eram divididos de maneira organizada, com tarefas delimitadas e núcleos operacionais.
💰A estimativa da polícia é que a quadrilha tenha movimentado cerca de R$ 70 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano desde 2018.
A facção tinha ainda rotas definidas para trazer a droga da Colômbia e distribuir os entorpecentes pelo país a partir do Amazonas. Para isso, empresas de fachada, nos ramos de transporte e locação, foram criadas. Elas eram usadas para ocultar a movimentação dos valores oriundos do tráfico, segundo a polícia - análises indicam incompatibilidade entre o volume financeiro movimentado e a capacidade econômica declarada pelos envolvidos.
Além disso, a cobertura logística dessas empresas "fantasma" maquiava o transporte das drogas, dando suporte logístico ao Comando Vermelho. Carros também eram alugados em nome de terceiros para dificultar o rastreamento pelas autoridades.
Os elementos reunidos apontam, ainda, indícios de tentativas de obtenção indevida de informações sigilosas relacionadas a procedimentos criminais, com o objetivo de antecipar ações policiais e judiciais que atrapalhassem o tráfico.
Segundo a polícia, o grupo teria movimentado cerca de R$ 70 milhões desde 2018, o equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano.
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Alvos incluem servidor público e ex-assessores
No Amazonas, estão entre os alvos um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), uma integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, David Almeida, além de ex-assessores parlamentares e um policial militar. O prefeito da capital não é investigado.
O g1 tenta contato com a defesa dos presos na operação, mas não obtivemos retorno até a última atualização desta reportagem.
Veja quem foi preso no estado:
Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas;
Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas;
Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus. Foi chefe de gabinete do prefeito da capital até 2023;
Alcir Queiroga Teixeira Júnior – citado na investigação como ligado a movimentações financeiras suspeitas;
Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar;
Osimar Vieira Nascimento – policial militar;
Bruno Renato Gatinho Araújo; – investigado por participação no esquema
Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara.
Mandados também foram cumpridos em outros seis estados. Entre eles, a prisão de Lucila Costa Meireles, de 42 anos, também apontada como integrante do núcleo político. Ela já exerceu cargos de assessoria parlamentar, inclusive na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas e na Câmara Municipal de Manaus.
Os investigados devem responder por organização criminosa, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção e violação de sigilo funcional.
INFOGRÁFICO - Operação contra 'núcleo político' do CV no Amazonas [VALE ESTE]
g1