Facções criminosas atuam em ao menos 25 municípios do Amazonas, aponta estudo
20/01/2026
(Foto: Reprodução) Presença de facções cresce e chega a 45% das cidades da Amazônia
Ao menos 25 dos 62 municípios do Amazonas possuem atuação de facções criminosas, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O consolidado, publicado em dezembro de 2025, mostra também que em pelo menos quatro municípios há duas ou mais organizações criminosas.
🔍 Os dados foram divulgados através do estudo: Experiências promissoras de prevenção e enfrentamento ao crime e à violência na Amazônia. Foram combinados dados de órgãos públicos, organizações sociais e pesquisas acadêmicas para contextualizar o cenário da violência, além de entrevistas com gestores, lideranças comunitárias e especialistas.
De acordo com o estudo, o Comando Vermelho (CV) está presente em 19 cidades de forma única, enquanto o Primeiro Comando da Capital (PCC) atua apenas no município de Coari. Já os Piratas do Solimões comandam as ações criminosas em três municípios do estado.
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"O PCC vem perdendo abrangência no Amazonas, sobretudo após o CV ter tomado a última área sob o controle da facção paulista em Manaus, a Comunidade de Valparaíso, localizada no bairro de Nossa Senhora de Fátima, Zona Norte de Manaus", diz um trecho do estudo.
Os municípios de Japurá e São Gabriel da Cachoeira, ao norte do Amazonas, registram a presença de grupos criminosos colombianos. Em Japurá, atua o Estado Maior Central (EMC), enquanto em São Gabriel da Cachoeira está a facção Ex-Farc Acácio Medina. Ambos operam em parceria com o Comando Vermelho (CV), fornecendo maconha e cocaína para o tráfico de drogas na região.
"Por ser um extenso estado e rota dos entorpecentes oriundos tanto da Colômbia quanto do Peru, o estado do Amazonas tem sido estratégico para que o CV garanta o controle pleno sobre as rotas do narcotráfico que atravessam esse estado, principalmente as que utilizam os rios, furos e igarapés", aponta o estudo.
O g1 questionou a Secretaria de Segurança Pública (SSP) quais ações estão sendo implementadas no combate às organizações criminosas, mas até a publicação desta reportagem não houve resposta.
➡️ Confira a lista de cidades amazonenses com atuação de facções:
Anamã – CV
Atalaia do Norte – CV
Barcelos – CV e Piratas dos Solimões
Benjamin Constant – CV
Borba – CV
Carauari – CV
Coari – PCC
Codajás – Piratas dos Solimões
Envira – CV
Guajará – CV
Iranduba – CV
Itacoatiara – CV
Itamarati – CV
Japurá – CV e Estado Maior Central (EMC)
Lábrea – CV
Manaus – CV
Maués – CV
Parintins – CV
Rio Preto da Eva – CV
Santo Antônio do Içá – CV
São Gabriel da Cachoeira – CV e Ex-Farc Acácio Medina
São Paulo da Olivença – CV
Tabatinga – CV
Tefé – CV e Piratas dos Solimões
Tonantins - CV
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Presença do Comando Vermelho no Amazonas
Divulgação
Rota do Solimões
A região do Alto Solimões, no sudoeste do Amazonas, se consolidou como uma das principais rotas do tráfico internacional de drogas na Amazônia, com forte atuação e disputa de dois dos maiores grupos criminosos do país: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A região concentra 281 mil habitantes, dos quais 54% são indígenas, e registra altos índices de vulnerabilidade social: mais de 80% da população está inscrita no CadÚnico e 64,7% recebe Bolsa Família.
A dependência do setor público é dominante, e apenas 12,8% das pessoas acima de 14 anos estão ocupadas, índice quatro vezes menor que o nacional. O território tem ainda 56% de sua área dentro de Terras Indígenas já homologadas.
Infográfico - Comando Vermelho (CV) busca dominar rotas do tráfico na Amazônia pelo Rio Solimões
Arte g1
Municípios sob pressão
Tabatinga concentra a maior parte da população e faz fronteira seca com Letícia (Colômbia), sem controle migratório. Em 2024, registrou 31 das 52 mortes violentas da região, com taxa de 42,9 por 100 mil habitantes. Autoridades relatam redução de confrontos após a hegemonia do Comando Vermelho, mas com violência “seletiva” e expansão de pontos de consumo.
Benjamin Constant funciona como eixo entre Tabatinga e Atalaia do Norte, com circulação intensa de embarcações e jovens considerados alvos fáceis de aliciamento.
Atalaia do Norte tem território amplo, marcado por rotas florestais usadas pelo tráfico e aumento da movimentação noturna de lanchas.
São Paulo de Olivença é ponto intermediário do fluxo do Solimões, com registros de abordagens armadas a embarcações.
Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins, Fonte Boa e Jutaí possuem baixa presença estatal e rios menores que funcionam como rotas alternativas para o escoamento de drogas e para crimes ambientais.
Fronteira aberta e logística fluvial alimentam o narcotráfico
A fronteira entre Tabatinga e Letícia é completamente aberta: pessoas, motos, carros e mercadorias cruzam livremente, facilitando o transporte de drogas, armas e valores.
Do lado peruano, localidades como Caballococha e Bellavista produzem pasta base; do lado colombiano, as plantações se concentram nas bacias dos rios Içá e Japurá. Todas as rotas convergem para o Solimões, de onde a droga segue para Manaus e outras regiões do país.
Segundo o estudo, a logística opera em dois ecossistemas complementares:
Urbano, que funciona como centro de comando, lavagem de dinheiro e distribuição;
Fluvial-florestal, no qual rios, igarapés e trilhas na mata são instrumentalizados para transportar cocaína, ouro, madeira e pescado ilegal.
A confluência geográfica, porosa e praticamente sem fiscalização, transforma o Alto Solimões em porta de entrada da pasta base produzida nessas áreas do Peru e da Colômbia.
Forças de Segurança Pública intensificam fiscalização de embarcações no Alto Solimões.
Rede Amazônica
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