Prints mostram conversas entre suspeitos do 'núcleo político' do CV e servidor do Tribunal de Justiça do AM
20/02/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Civil faz operação contra núcleo político do Comando Vermelho no Amazonas
Prints de conversas obtidos pela Polícia Civil do Amazonas na operação Erga Omnes, realizada na sexta-feira (20), mostram como suspeitos de integrar o "núcleo político" ligado ao Comando Vermelho trocavam informações sobre pagamentos e decisões judiciais no estado. Segundo a investigação, o grupo usava influência em órgãos públicos para obter informações sigilosas e facilitar ações da quadrilha.
Na operação, a polícia cumpriu 14 mandados de prisão, sendo oito deles no Amazonas. Entre os presos, estão a ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus e um servidor do Tribunal de Justiça do estado .
De acordo com a polícia, as mensagens estavam no celular de Lucila Meireles Costa, de 42 anos, presa no Centro de Teresina, no Piauí. Os prints incluem referências a transferências via Pix e consultas sobre a expedição de mandados de prisão.
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Em um dos trechos, Lucila envia um comprovante de pagamento para Izaldir Moreno Barros, servidor do tribunal, e afirma que a missão dele era verificar se "tem algo no sistema e se já foi expedido o mandado de prisão". Ela também diz que eles deveriam monitorar a situação até o fim do mês.
Em outra conversa, Lucila fala com Allan Kleber Bezerra Lima, apontado pela investigação como líder do núcleo político e considerado foragido após a operação. Nas mensagens, trocadas em 2 de setembro de 2025, ela mostra que havia falado minutos antes com Izaldir.
Prints mostram pagamento e consultas sobre mandados entre suspeitos de núcleo do CV no AM
Divulgação
Como era o esquema
Segundo a polícia, a organização criminosa movimentou cerca de R$ 70 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano desde 2018, e atuava em conjunto com traficantes do Amazonas e de outros estados.
As investigações apontam que os suspeitos facilitavam a contratação de empresas de fachada nos setores de transporte e logística. Na prática, essas empresas seriam usadas para comprar drogas na Colômbia e enviá-las a Manaus. Da capital amazonense, os entorpecentes seriam distribuídos para outras unidades da federação.
Os investigados devem responder por organização criminosa, associação para o tráfico de drogas, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e violação de sigilo funcional.
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Quem são os alvos da operação
Ao todo, oito pessoas foram presas no Amazonas e seis fora do estado. Confira quem são os detidos no AM:
Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas. A polícia aponta que ele recebia pagamentos para fornecer informações sigilosas de processos em segredo de Justiça, o que teria beneficiado o grupo criminoso.
Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas. Relatórios de inteligência financeira indicam transações milionárias ligadas ao esquema;
Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil que integra a Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e foi chefe de gabinete do prefeito David Almeida. A investigação diz que ela teria movimentado cerca de R$ 1,5 milhão em favor da facção por meio de empresas de fachada;
Alcir Queiroga Teixeira Júnior – investigado por participação no esquema financeiro que movimentava valores suspeitos para a organização criminosa;
Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar de vereador, apontado pela polícia como parte da rede de influência do grupo;
Osimar Vieira Nascimento – policial militar preso sob suspeita de envolvimento com as atividades do núcleo político investigado;
Bruno Renato Gatinho Araújo – preso no Amazonas e incluído na lista de investigados pela operação.
Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara por suposta participação no esquema.
Lucila Costa Meireles, presa fora do Amazonas, também é apontada como integrante do núcleo político. Ela já exerceu cargos de assessoria parlamentar, inclusive na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas e na Câmara Municipal de Manaus.
Segundo a polícia, Lucila se apresentava como advogada sem ter registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e atuava como lobista do grupo. Mensagens analisadas indicam que ela e outra suspeita teriam pago propina a um servidor do Judiciário para obter e repassar informações de processos que tramitavam em segredo de Justiça.
Além de Allan Kleber, outros oito investigados são considerados foragidos. Entre eles está Núbia Rafaela Silva de Oliveira, ex-assessora parlamentar do vereador Elisansandro Bessa (PSB). A investigação aponta que ela atuava como advogada do grupo e trabalhava em conjunto com Lucila Costa Meireles para dificultar o andamento das apurações.
Relatórios e mensagens extraídas de celulares indicam que Núbia foi contratada por Allan Kleber e participava de conversas sobre pagamentos a servidores do Judiciário para acompanhar e agilizar processos de interesse da organização.
Infográfico mostra como funcionava o esquema do Comando Vermelho no AM
Arte/g1
A defesa de Anabela Cardoso Freitas informou que ela não possui qualquer relação com organizações criminosas nem com os demais investigados. A defesa destacou ainda que ela é servidora pública concursada e reconhecida pela idoneidade. O g1 tenta ainda localizar a defesa dos outros alvos da operação.
Procurado, o Tribunal de Justiça do Amazonas informou que já adotou medidas administrativas em relação ao servidor citado na operação. A Corte afirmou que preza pela legalidade, pela transparência e pela integridade e que não compactua com condutas incompatíveis com os deveres funcionais.
Já a Universidade do Estado do Amazonas declarou que não se responsabiliza por atos praticados por servidores fora do âmbito institucional. Sobre Adriana Almeida Lima, a instituição esclareceu que eventuais ações realizadas fora das dependências da universidade e do exercício das atividades acadêmicas são de responsabilidade exclusiva da professora. A UEA reafirmou compromisso com a ética, a legalidade e as normas que regem o serviço público.
Em nota, a Polícia Militar do Amazonas informou que o cabo preso na operação da Polícia Civil do Amazonas vai responder aos procedimentos na Justiça e também a trâmites administrativos na corporação. Segundo a PM, foi instaurado procedimento na Diretoria de Justiça e Disciplina. A instituição afirmou ainda que colabora com as investigações e não compactua com desvios de conduta.
Já a Prefeitura de Manaus informou que não é alvo da operação realizada na sexta-feira (20). De acordo com a nota, nem o prefeito David Almeida nem a estrutura administrativa do município fazem parte da investigação.
A prefeitura declarou que mantém compromisso com a legalidade e a transparência e que eventuais servidores investigados responderão individualmente por seus atos, conforme a lei.
A Câmara Municipal de Manaus orientou que os questionamentos sejam direcionados aos gabinetes dos vereadores onde os investigados trabalharam.
A reportagem aguarda o retorno da Assembleia Legislativa do Amazona.
Anabela Cardoso Freitas, policial e ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, é presa