Rios viram rota do tráfico e aumentam a violência no interior do Amazonas, aponta estudo
03/04/2026
(Foto: Reprodução) Presença de facções cresce e chega a 45% das cidades da Amazônia
O avanço do tráfico de drogas pelos rios tem impulsionado a violência no interior do Amazonas. É o que aponta o estudo "Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira", do projeto Amazônia 2030, divulgado em março, que mostra aumento de homicídios e maior presença do crime organizado em municípios do estado.
Segundo o relatório, as hidrovias amazônicas passaram a ser usadas como rotas estratégicas do tráfico internacional de cocaína. Os rios ligam países produtores à capital Manaus, que funciona como ponto de distribuição para outras regiões do Brasil e do exterior.
De acordo com o estudo, a mudança começou nos anos 2000, após ações de combate ao tráfico aéreo encarecerem esse tipo de transporte. Com isso, organizações criminosas migraram para as rotas fluviais.
Na prática, o tráfico avançou para áreas antes isoladas. Comunidades ribeirinhas e cidades do interior passaram a integrar essa rede, o que contribuiu para o aumento da violência. O crescimento ficou mais evidente a partir de 2010, quando os casos se intensificaram no Amazonas.
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“A partir de 2010, esse processo parece ter intensificado ainda mais e avançado para áreas até então pouco afetadas, especialmente nos estados do Amazonas e do Acre”, destaca um trecho do relatório.
Cidades com riscos acumulados
Além do tráfico, a violência está ligada à presença de várias atividades ilegais ao mesmo tempo. Entre elas estão a grilagem de terras, a exploração ilegal de madeira, a mineração de ouro e a atuação de facções criminosas.
No Amazonas, municípios como Lábrea, São Gabriel da Cachoeira, Japurá, Barcelos e Canutama aparecem com risco acumulado. Isso significa que essas cidades concentram mais de um desses problemas, o que aumenta a vulnerabilidade à violência.
O relatório aponta que locais com três ou quatro fatores de risco tiveram crescimento mais intenso nos homicídios nos últimos anos, em comparação com municípios sem essas ocorrências.
Facções ampliam conflitos
O estudo também mostra que, desde meados da década de 2010, facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) ampliaram a presença na região.
A disputa por rotas e territórios intensificou os conflitos, principalmente em cidades menores e próximas a áreas de atividades ilegais.
Com isso, o perfil da violência mudou. Antes, os conflitos estavam mais ligados à disputa por terra e recursos naturais. Agora, estão conectados a redes do crime organizado, com atuação até internacional.
ENTENDA: CV trava guerra com PCC por rotas do tráfico na Amazônia após exterminar facção que já foi 3ª maior do Brasil
Diante desse cenário, os pesquisadores alertam que medidas tradicionais, como fiscalização ambiental e regularização fundiária, já não são suficientes. Segundo o estudo, é necessário integrar ações de segurança pública, controle do território e combate ao crime organizado.
O g1 procurou a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas para saber quais medidas estão sendo adotadas para enfrentar o avanço das facções e do tráfico de drogas no estado, e se há estratégias específicas para municípios do interior e comunidades ribeirinhas em situação de vulnerabilidade e aguarda retorno.
Grupos criminosos aderiram os riospara o escoamento dos entorpecentes
Divulgação/PC-AM