Rodovia na floresta: reconstrução da BR-319 divide opiniões e levanta debate sobre preservação
15/05/2026
(Foto: Reprodução) Passagem superior de fauna na BR-319 em trecho do Amazonas
Michael Dantas/WCS
O quarto e último episódio da série "Rodovia na Floresta: Ecos da BR-319" mostra os debates sobre o futuro da rodovia que liga Manaus a Porto Velho. Entre projetos, embargos e discussões ambientais, a principal pergunta continua sem resposta definitiva: "É possível reconstruir a BR-319 sem comprometer a floresta amazônica?"
A reportagem mostra como a estrada, inaugurada há 50 anos, se tornou alvo de sucessivas tentativas de recuperação, ações judiciais e propostas de desenvolvimento sustentável. Assista acima.
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Histórico de obras, embargos e projetos
A BR-319 corta uma das regiões mais preservadas da Amazônia e atravessa áreas consideradas ricas em fauna e flora. Segundo especialistas, qualquer obra na rodovia precisa levar em conta os impactos ambientais provocados pela ocupação ao longo da estrada.
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De acordo com o histórico do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a rodovia foi fechada em 1988 por falta de manutenção. Desde então, diferentes governos anunciaram projetos de recuperação, mas muitos acabaram interrompidos por falta de licenciamento ambiental ou decisões judiciais.
Em 2005, a Justiça Federal do Amazonas embargou as obras e exigiu estudos de impacto ambiental por parte do DNIT e do Ibama. Entre 2006 e 2009, foram criadas unidades de conservação e discutidas medidas para reduzir os impactos ambientais da reconstrução.
Em 2017, o Governo do Amazonas apresentou ao governo federal um projeto de "rodovia sustentável". A proposta previa asfaltamento com proteção ambiental no trecho do meio da BR, passagens subterrâneas para animais silvestres e fiscalização permanente para combater crimes ambientais. O projeto, no entanto, não avançou.
Obras e novos projetos na estrada
Durante a viagem pela rodovia, a equipe da reportagem encontrou máquinas trabalhando em alguns trechos da BR-319. Os serviços incluem nivelamento do solo e compactação de barro para garantir a passagem de veículos.
Recentemente, o Dnit abriu quatro licitações para obras em diferentes pontos da rodovia, entre os quilômetros 250 e 590.
Também está prevista a construção de uma ponte sobre o Rio Igapó-Açu, onde a travessia é feita por balsas há cerca de 50 anos. A obra deve durar quase dois anos.
A possibilidade de mudanças na região preocupa moradores da comunidade.
"Isso preocupa a comunidade. Já avisaram que vão deslocar todo mundo. Temos postos, escolas. Não quero ver meu povo jogado fora", afirmou a empreendedora Nilda Castro dos Santos.
1° episódio: Rodovia na floresta: como a BR-319 foi da promessa de integração ao abandono no meio da Amazônia
2° episódio: Rodovia na floresta: isolamento, atoleiros e os desafios de quem ainda depende da BR-319
3º episódio: Rodovia na floresta: desafios para escoar produção e integrar a Amazônia por terra
Preservação ambiental e desenvolvimento
Atualmente, a BR-319 passa por áreas protegidas, incluindo cinco unidades estaduais de conservação e outras seis federais. Para pesquisadores, o principal desafio é garantir que a reconstrução da estrada aconteça sem aumentar o desmatamento.
O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique Pereira, afirmou que existem exemplos de rodovias construídas em áreas ambientalmente sensíveis que conseguiram conciliar infraestrutura e preservação.
"Tem exemplos na Bahia e na região da Mata Atlântica. A BR-319 pode ser um exemplo, se seguir as diretrizes", disse.
Já produtores e empresários defendem que a estrada é importante para o transporte de cargas, escoamento da produção rural e chegada de insumos ao Amazonas.
"O Amazonas tem mais de 90% da floresta preservada. A estrada está abandonada e não há controle", disse o empresário Adélio Barofaldi.
O engenheiro agrônomo do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam), Pedro Henrique Trindade, também destacou a importância da rodovia para a produção rural.
"Precisa ter preservação, mas a BR é importante para o escoamento da produção e chegada de maquinários e implementos", afirmou.
Ao completar 50 anos em março deste ano, a BR-319 segue no centro de um debate que envolve desenvolvimento, preservação ambiental e integração da Amazônia.